O ruído como estratégia: quando o excesso de opinião substitui os factos

Vivemos num tempo em que a opinião deixou de ser consequência da informação para passar a ser o seu ponto de partida. Antes de sabermos o que aconteceu, já somos empurrados a escolher um lado. O ruído antecede os factos — e, muitas vezes, acaba por os dispensar.

A aceleração do ciclo informativo não trouxe apenas mais notícias. Trouxe menos tempo para pensar, menos espaço para contextualizar e uma crescente intolerância à dúvida. A análise, que exige pausa e método, tornou-se um incómodo num ecossistema que recompensa a reação imediata.

Nas redes sociais e em parte do comentário mediático, a lógica é simples: quem fala mais alto chega primeiro. O rigor perdeu terreno para a assertividade performativa. Não importa tanto estar certo, mas parecer certo — de preferência em poucas palavras, com uma frase facilmente partilhável.

Este fenómeno não é neutro. Quando a opinião se sobrepõe sistematicamente aos factos, cria-se uma perceção distorcida da realidade. A complexidade dos acontecimentos é reduzida a slogans, e a análise crítica dá lugar à fidelização emocional. O debate deixa de ser um exercício de compreensão e passa a ser uma disputa identitária.

Há também um efeito cumulativo: o público habitua-se a consumir interpretações em vez de informação. A fronteira entre notícia e comentário esbate-se, e a própria ideia de verdade factual torna-se negociável. Não porque os factos tenham desaparecido, mas porque deixaram de ser centrais.

Recuperar a primazia dos factos não significa eliminar a opinião. Significa recolocá-la no seu devido lugar. A análise séria nasce do confronto com dados, contexto e contradições — não da urgência em concluir.

Num tempo de excesso de ruído, a clareza é um ato quase subversivo. E insistir na análise, quando tudo empurra para a reação, é uma forma de resistência cívica.

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